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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Bruno e a hipocrisia

Vivemos num país onde a comunicação social é constantemente atacada por ter "falta de isenção". E no que ao futebol diz respeito, perco nas brumas da minha memória os inúmeros episódios de agressões a jornalistas, pedidos de boicote, black-outs, etc. E nem é preciso recuarmos muito no tempo. Ainda no sábado um jornalista da SporTV foi insultado em directo no estádio da Luz. E o octogenário Pinto da Costa meteu um repórter (da Renascença, creio) fora de um conferência de imprensa que estava a dar na rua. Sim, os jornalistas e os orgãos de comunicação social são um alvo fácil da fúria futebolística. Mas só agora é que se lembraram de proclamar que essas atitudes são anti-democráticas. 
A reação dos jornalistas ao boicote do Bruno foi a esperada. Rasgaram as vestes, cerraram fileiras, gritaram por "fascistas!!!". No que toca a classes profissionais que defendem acerrimamente os seus, os jornalistas são dos melhores. Quem ousar dizer algo sobre a falta de isenção de um OCS ou dum jornalista em particular, é logo acusado de atentar contra a liberdade de imprensa. Estranhamente, esta falange de defesa dos jornalistas desmobiliza-se quando na origem dos "atentados à liberdade de imprensa" está outro clube. Portugal é um país muito bonito, temos muita liberdade, democracia e tal, mas quando ousamos beliscar algumas "vacas sagradas", apanhamos uma carga de porrada à moda da velha PIDE. Exprimentem por em causa a isenção dos nossos jornalístas, dos nossos juízes ou dos advogados. Pior do que isto só mesmo meterem-se com o benfica. 
Irrita-me a hipocrisia com que a classe jornalística abordou a história do boicote de Bruno de Carvalho, principalmente quando num passado bem recente pudémos comparar absurdas diferenças de tratamento entre clubes e dirigentes. E irrita-me mais porque transformaram um inofensivo ataque do presidente do Sporting à imprensa num ataque à democracia.
E é um ataque inofensivo porquê? Em primeiro lugar, qualquer adepto de futebol neste país, que tenha um mínimo de bom senso e amor ao seu dinheiro, recusa-se a gastá-lo para comprar um jornal desportivo. Toda a informação que lá vem acaba por ser disponibilizada na internet. Seja nos sítios dos próprios jornais, seja em blogues, o seu conteúdo acaba por ficar ao alcance de qualquer internauta. Eu não compro um jornal desportivo aos anos, não foi preciso vir o Bruno sugerir-me para não o fazer. Mas quem o lê nos cafés e barbearias continuará a lê-lo, pois se calhar é a única forma que tem para confirmar que aquele golo foi mesmo mal anulado. Em segundo lugar, as televisões. Quem preza pela sua integridade intelectual há muito que deixou de ver os chamados "programas de painel desportivo". Não há paciência para Guerras, Rodolfos e Venturas aos gritos. Aquilo é tudo vazio de conteúdo, oco de substância. Não me lembro da última vez que vi um programa desses. E quem os vê, diz-me que é para se rir das palermices que por lá são ditas. Em terceiro, a questão que mais preocupa lampiões e andrades, que acham que estamos "proibídos" de ver outra coisa na televisão que não a Sporting TV. Sugerir, em 2018, que devemos apenas ver um canal de televisão tem tanto sentido como dizer a um adolescente que não beba alcool quando sair à noite ou pedir à nossa filha que se case aos 30 anos ainda virgem. São sugestões que não resultam porque simplesmente estão descabidas de sentido.
Ora, partindo do princípio que Bruno de Carvalho ainda está na plenitude das suas capacidades intelectuais e mentais, porque motivo decidiu ele levar a cabo um ataque à imprensa, que se tornou inofensivo de tão disparatado que foi? Para respondermos a esta pergunta, temos de nos pôr na óptica dos sportinguistas e não dos jornalistas ou dos nossos adeptos rivais. E como sportinguista, o que é que o discurso de Bruno de Carvalho contribuiu? Em primeiro lugar, como já disse, desmascarou a hipocrisia do nosso jornalismo. Bruno de Carvalho limitou-se a dar um pontapé na palmeira para ver a macacada a cair de lá. E cairam muitos macacos, alguns bem grandes. Em segundo lugar, militância. Bruno disse que a contrapartida por deixar de postar no Facebook e fugir do espaço mediático passaria por um incremento da militância sportinguista. E sugeriu formas de demonstrar essa militância: não embarcar em campanhas de intoxicação que alguma imprensa, desportiva e não só, teima em nos fazer. A forma como o sugeriu, boicotando tudo e todos, talvez não tenha sido a mais feliz. Mas se há coisa que já deveríamos saber sobre Bruno de Carvalho é que ele é assim. Para nos mostrar onde está a luz, ofusca-nos com o sol. Não há volta a dar com este presidente. Cabe-nos a nós, sportinguistas, perceber onde está a essência das coisas, sem nos debatermos pela espuma do supérfulo e acessório.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Quatro sentimentos de um sportinguista

Estou triste. Amargurado. Desiludido. E fodido da vida.
Estou triste porque ainda sou de um tempo em que o futebol, mesmo aquele disputado acerrimamente por Sporting, benfica e porto era algo saudável. Os jogos eram às 15 horas da tarde, nas bancadas havia verdadeiro convívio entre adeptos, mesmo de clubes rivais, sendo as crianças presença assídua e normal nos jogos. As claques serviam para apoiar os clubes. Apesar de um ou outro cântico mais ríspido, ou de uma ou outra palavra de ordem mais ordinária, as claques pertenciam à parte bonita do futebol. Quem não se lembra de como era a curva sul do velhinho Alvalade? Lindo! Nesses tempos, princípios dos anos 80, era impensável imaginar que algum adepto poderia ser assassinado por delito de opção futebolística. Não havia mil e tal comentadores facciosos e tendenciosos a minar a opinião pública. O jornalismo desportivo, consignado ao canal público e a três jornais tri-semanais, falava de futebol, não de "tendências". Vejam o que começou a mudar em meados de 80 e como foi possível chegarmos ao estado em que o futebol chegou hoje.
Estou amargurado porque não prevejo melhoria a este futebol nacional. A última semana foi exemplar: o presidente do benfica teve uma atitude desprezível e completamente descabida perante a gravidade de ter morrido um adepto às portas do seu estádio. Comparem o que se escreveu quando os super-dragões cantaram a música do Chapecoense com o que se escreveu após a morte do Ficcini. Como é possível ignorar as ligações mais que evidentes entre a claque "ilegal" No Name Boys e o benfica? Vivemos num país onde quase metade da população é simpatizante de um clube de futebol, pelo que a comunicação social está constantemente embrulhada nesse dilema entre desmascarar o presidente sonso do clube com mais adeptos e perder audiências ou então ignorar os gritos à sua volta e agradar ao adeptos do clube do regime. Nós, Sporting, enquanto andarmos a batalhar contra toda a sujidade que vem do outro lado da 2.ª circular, seremos sempre os maus da fita, os desestabilizadores, os incendiários. Quando a abertura de um restaurante é mais importante que um seminário onde se debate o futuro do futebol, está tudo dito.
Estou desiludido porque há uma verdade insofismável nisto tudo. É que para continuarmos a ter razão e moral para criticarmos o que se passa no futebol, também temos de mostrar um futebol com mais qualidade e resultados do que este que temos mostrado. Precisamos do Sporting da época passada, para que todos vejam e reflictam como é possível aquela equipa ter perdido o campeonato para a que o ganhou. Sem esse "moral" de mostrarmos que os outros só nos ganham com artimanhas e jogo baixo, também nos começam a faltar forças para lutar contra o Estado Lampiânico. Tínhamos de incutir na equipa precisamente aquela raiva, que todos os sportinguistas sentiram quando o último campeonato acabou e viram a tremenda injustiça que se passou. Os jogadores tinham de rasgar o equipamento, bater com os punhos cerrados no chão, gritar de raiva, como muitos de nós fizemos. Deviam entrar em cada jogo deste campeonato com ganas de demonstrar, em 34 passos, o embuste que foi a época de 2015/2016. O jogo do passado sábado, poderia ter sido preparado psicologicamente para explorar essa "raiva" contida nos jogadores. E estou desiludido porque, claramente, e como nos outros jogos da época, essa "raiva" não foi incutida. Ou se foi, a mensagem não passou.
E por isso estou fodido da vida. Li aqui há tempos que o André Villas-Boas, quando chegou ao porto no verão de 2010, a primeira coisa que fez foi colar fotos no balneário de jogadores do benfica a festejar o título da época anterior. Quis incutir precisamente aquela "raiva" que falei atrás. Todos sabemos como foi essa época de 2010/2011, mesmo com os empurrões azuis no inicio da época. Estou fodido da vida porque tenho de recuar quase até à década de 80 para me lembrar de equipas do Sporting aguerridas, agressivas, viris, que entravam em campo com tudo. Temos um presidente que se atira de cabeça contra tudo que seja contra nós, temos uma massa associativa e adepta que está com o presidente, que puxa pela equipa, que está sedenta de justiça. Estava na altura de termos uma equipa que fosse o espelho do presidente e dos sportinguistas, com jogadores que em campo fossem uns verdadeiros leões! E nem eu, nem nenhum outro sportinguista, depois do fracasso que foi esta época, admitiremos algo pró ano que não seja assim.

domingo, 23 de abril de 2017

A vitória do cinismo

O jogo de ontem foi um hino ao cinismo.
Infelizmente o derby havia começado horas antes das anunciadas 20h30 pelos mais tristes e infelizes motivos. A morte de um adepto assinalou uma já longa e abominável lista de vitimas do hooliganismo nacional. Pelo meio, naquilo que tresandava de cheiro a homicídio puro e duro, foi "delicioso" ver os telejornais da hora de almoço citar vizinhos anónimos e outras fontes igualmente credíveis, para nos tentar vender que o condutor tinha sido atacado, defendeu-se e sem querer atropelou o rapaz italiano. Comparem esta versão com aquela que circulava hoje de fonte da PJ. Este é hoje o actual estado da comunicação social em Portugal: vale tudo para vender o lado certo da história, sob a capa do pós-verdade e a sombra da cartilha.
Bruno de Carvalho fez o que qualquer homem provido de bom senso faria perante uma tragédia destas. Estendeu a mão ao seu homólogo do benfica. Seria algo bonito, romântico, ver os dois presidentes juntos a assistir a um jogo desta importância na tribuna. Luís Filipe Vieira não só não teve postura de estado como lhe faltou a hombridade que caracteriza os grandes Homens nos momentos difíceis. Cuspiu na mão apaziguadora que lhe estenderam, desenterrou Vale e Azevedo e desculpou um acto miserável, de uma forma igualmente miserável. Se tivesse sido BdC a dizer o que LFV disse, teríamos conversas, debates, aberturas de telejornais, tudo em teor condenatório. Como quem disse foi quem o disse, tudo passou despercebido. Vi hoje à hora de almoço o David Borges a criticar LFV mas indirectamente, quase por mensagens subliminares. É assim que está a nossa comunicação social.
O cinismo não ficou por aqui. Se LFV foi timidamente criticado pela sua vergonhosa atitude, já Rui Vitória foi aclamado de pé por ter defendido compreensão perante o trabalho de Artur Soares Dias. Como se o empate tivesse sido uma mau resultado para RV. De repente os discursos das ceboladas e dos 6 milhões atrás de nós foram remetidos para o país da amnésia, surgindo o treinador encarnado como exemplo do desportivismo e fair-play, em contrate com "outros intervenientes". E que "outros intervenientes" seriam estes? Pois, não é difícil adivinhar.
O jogo em si também não destoou do cenário cínico. Foi um espectáculo pobre, praticamente sem momentos de perigo ou oportunidades de golo. Lembro-me que em jogos assim, desde os finais dos anos 80 até há 3 ou 4 anos atrás, contra o porto, nunca conseguíamos ganhar. Podíamos até, como ontem, marcar um golo madrugador ou de sorte. Mas depois sofríamos também golos de sorte (neste caso, de azar). Ontem, o jogo tinha tudo para ser como esses clássicos antigos. Sem oportunidades de golo, cedo pareceu que só em lances de bola parada se conseguiriam marcar os golos em falta. Se Grimaldo, o marcador de serviço do benfica, não conseguiu marcar, nada melhor que estrear um desconhecido nestes lances e... claro que só o Sporting poderia sofrer um golo dessa maneira. 
Finalmente, os outros dois intervenientes no jogo que, no meu entender, mais contribuíram para o resultado final:
Artur Soares Dias - Não sei o que levou o árbitro a não assinalar aqueles penaltis na área do Sporting. Se o do William ocorre 300 vezes num jogo, o do Scheloto também é facilitado pela manha do Grimaldo, o do Bruno César é daqueles que só não vê quem não quer. Talvez tenha sido da conversa que teve com Rui Costa ao intervalo, pois na segunda parte simplesmente não assinalou nenhuma falta a favor do Sporting no último terço do terreno. Além que a falta que origina o golo do benfica é inexistente. Se fosse para nos fazer sofrer, mais valia ter marcado aqueles 3 penaltis logo na primeira parte, e ter deixado o jogo fluir, E assim apita o melhor árbitro português da actualidade.
Jorge Jesus - Na minha ante-visão do jogo, considerei que o seu melhor trabalho táctico seria uma mais valia sobre o benfica e contribuiria decisivamente para uma possível vitória nossa. Ontem não podia ter sido mais diferente. Se a entrada no onze de Paulo Oliveira foi positiva e a de Jefferson espectável, o que dizer das prestações de Bruno César e Alan Ruiz? O que leva o treinador que lançou Matheus Pereira a titular no dragão, a não lançar Podence titular no jogo de ontem? Porque motivo Alan Ruiz quando foi substituído, não foi pelo mesmo Podence mas sim por um desinspirado Brian Ruiz? Será que nos 4 jogos que faltam ainda vamos ver Campbell titular? Não estaria na altura de começar a jogar com Podence, Geraldes, Gelson Dala (no banco) ou até o Palhinha??? Foda-se JJ, assim não dá, né?!?!?!

terça-feira, 11 de abril de 2017

Al-Carnidão

Ontem, o humorista e sportinguista José de Pina inventou mais um termo que irá ficar no nosso ouvido durante os próximos tempos.
Depois de criar a denominação "Estado Lampiânico" para definir a estrutura encoberta e subversiva benfiquista, o humorista lançou um novo termo arabizado que, digo eu, assenta que nem uma luva à cartilha encarnada.
José de Pina é um sportinguista algo incompreendido pelos outros adeptos do nosso clube. Pouco dado à ribalta da TV, começou primeiro a destacar-se no Futebol de Perdição da Sporting TV, tornando-se conhecido assim que entrou para o Prolongamento na TVI24. Humorista acutilante, sarcástico, irónico, José de Pina tem em mim um seguidor fiel do seu humor. Como sportinguista, representa o que de bom a cultura do nosso clube tem: fair-play, elevação no debate, temperamento. 
Não lhe invejo a posição que toma todas as segundas-feiras, naquele programa onde participa um ser inenarrável que já jogou à bola no Damaiense. Pedro Guerra, além da aparência abjecta, tem tudo o que um demagogo mentiroso e manipulador precisa: dom de palavra, voz alta e um discurso onde consegue dizer e desdizer o que disse com a mais desenvergonhada tranquilidade. Perante a passividade do moderador, Guerra consegue ir manipulando os temas do programa, impondo a sua agenda de debate. Para debater com uma pessoa assim, teria de ser preciso alguém com outro tipo de temperamento. Bruno de Carvalho teve-o e humilhou-o quando foi ao Prolongamento em Outubro de 2015. José de Pina não tem esse temperamento, apesar de todas as qualidades que tem enquanto sportinguista, comentador de futebol e figura mediática. Assim de repente, a única personagem que via debater de igual para igual com Guerra era o Carlos Dolbeth, mas temo que nesse dia o programa acabasse em pancadaria. Talvez fosse melhor assim.
Após estas linhas, onde quis apenas enaltecer e homenagear esse grande espírito criativo e mártir da máquina lampiónica, José de Pina, volto ao tema que domina a actualidade desportiva: as cartilhas. Ou melhor, o Al-Carnidão.
Enquanto o amigo Octávio do Crime da Manhã tenta pegar num e-mail escrito por Bruno de Carvalho e dar-lhe a mesma gravidade que o Al-Carnidão merece, o Porto Canal promete lançar hoje novidades sobre a cartilha encarnada. 
Como ponto prévio, sinto alguma frustração por nós, durante toda a época passada, não termos conseguido divulgar oficialmente algo como o Porto Canal divulgou, apesar de todos sabermos que os briefrings existiam. Foi preciso o "Sistema" começar a ter de enfrentar o Estado Lampiânico para que a máquina portista se pusesse no terreno. E o que é certo é que eles descobriram esta coisa e se hoje revelam ao país que havia jornalistas também a receber o briefing, temos matéria suficiente para desmascarar o Estado Lampiânico. É certo que a denúncia do caso dos vouchers, na época passada, também foi um marco importante na nossa afirmação e do trabalho de bastidores que temos de fazer e fazemos. No entanto, é bom que a nossa estrutura ponha os olhos nisto e perceba que temos também nós de ir para o terreno, sujar as botas na lama, em busca de mais podres do futebol português.
Não concebo outra coisa para hoje que não a revelação de nomes de jornalistas que receberam o Al-Carnidão e o usaram para criar sound-bytes pró-benfica. E tenho a esperança que nas próximas semanas, talvez se venha a descobrir que outros actores receberam a cartilha. 
Veremos.  

sábado, 8 de abril de 2017

A Normalidade

No livro "As Origens do Totalitarismo", Anna Harendt defende que o totalitarismo impõe-se sobretudo por que faz um uso descarado do mal (a perseguição dos oponentes na URSS ou dos judeus na Alemanha Nazi), até ao momento que tal acaba por ser aceite pelos cidadãos comuns como sendo algo normal - é a banalização do mal.
Temos carradas de exemplos sobre o que é que na prática significa a banalização do mal. Ainda há dias um camião correu desenfreado numa rua pedonal de Estocolmo, ceifando várias vidas na até então segura e pacata Suécia. Já ninguém usa a hashtag #prayfor ou filtra a fotografia de perfil do Facebook com a bandeira da Suécia. Os mídia passaram a tratar estes atentados já não de uma forma chocante e, ao mesmo tempo, mobilizadora da opinião pública, optando antes por um registo mais suave, quase como difundem um atentado que mata 200 pessoas no Iraque, mesmo que este tipo de atentados em solo europeu fosse algo impensável há dois anos. No final de contas tudo não passa de uma questão de percepção. A forma como encaramos de hoje em dia a normalidade é também ela ditada pela forma como percepcionamos a realidade. Ou, como essa percepção nos é provocada.
Vejamos um exemplo: em Outubro de 2015, Bruno de Carvalho denunciou um esquema ilegal de prémios que o benfica entregava aos árbitros que lhe apitavam os jogos. Inicialmente o esquema foi desacreditado porque, diziam os comentadores, era tudo mentira. Ninguém recebia voucher nenhum. Passados uns dias, assim que se começaram as saber algumas histórias de árbitros que costumavam jantar no Museu da Cerveja, a narrativa passou a ser que o valor gasto nas refeições ficava abaixo do que a UEFA considerava como limite aceitável para uma oferta. Como esse limite era algo elevado, face à realidade económica portuguesa e ao que os árbitros ganham por jogo, banalizou-se o assunto voucher: afinal era uma coisa normal, ninguém se deixa corromper por uma refeição e todos ofereciam alguma coisa aos árbitros. Entretanto a justiça desportiva portuguesa não condenou o clube acusado, pelo que de hoje em dia é normal um árbitro receber um voucher para uma refeição que pode ir até aos 200 euros...
A cartilha do Estado Lampiânico está em fase de normalização. Os noticiários do dia ainda falaram sobre o assunto, contudo os spin-doctors do costume já começam o seu trabalho para modelar a realidade que percepcionaremos. A narrativa hoje é que a cartilha afinal é reveladora da estrutura afinada do benfica (Ribeiro Cristóvão), da adaptação da estrutura a uma época onde a informação é tudo (Rui Gomes da Silva), sendo que o facto desta ser pública, ao contrário da cartilha dos seus rivais, apenas comprova a benevolência dos seus fins (esta é a incrível conclusão deste artigo na Tribuna do Expresso).
Nos próximos dias continuarão a vender-nos que tudo isto é normal. É normal comentadores independentes falarem um discurso alinhado por uma pessoa isenta; É normal esta pessoa isenta fazer estes briefings sem ser assalariada do clube que defende; É normal um clube profissional utilizar este canal para atacar os seus adversários, escudando-se assim nos seus papagaios de serviço sem o risco de incorrer em infracções disciplinares; E outras normalidades que tais. E de normalidade em normalidade, tudo isto será banal, de tão normal que é (esperem até chegar o dia em que se descobrir que a cartilha também é entregue a jornalistas "isentos").
Bem, e que logo à noite ganhemos por 3 ou 4 ao Boavista... como é normal!

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O Estado Lampiânico

Muito tenho eu escrito aqui sobre o Estado Lampiânico. E escrevo porque é preciso desmascará-lo, desmistificá-lo, expor na praça pública as suas engrenagens, os seus movimentos, os seus tentáculos.
Sobre o Sistema, que nestas últimas semanas pareceu querer voltar a dar um ar de sua graça, já muito se escreveu, analisou e sintetizou. Aqui não há nada de novo, a única novidade é que poderá ainda não estar tão morto como muitos o julgavam. Já o Estado Lampiânico tem essa grande vantagem de muitos ainda acharem que não passa de um mito, criado por uma corja de anti-benfiquistas avençados de Bruno de Carvalho. O que o Artista do Dia aqui divulgou é algo que para mim não é surpresa, nem para os que seguem os meandros do futebol nacional. 
O Estado Lampiânico sobrevive nesse limbo onde a imprensa desportiva e generalista o colocou, se algo que não se manifesta, um mito, uma história para assustar criancinhas. Ao contrário do discurso directo do actual Sporting, o EL vive de uma teia de amigos e interesses, colocados em lugares chave do mediatismo, que a cobro de uma putativa imparcialidade ou objectividade sussurram as palavras de ordem da cúpula encarnada. Jornalistas isentos, humoristas, políticos, homens de negócio, futebolistas, empresários, presidentes de clubes, tudo é manipulado pelo polvo vermelho. Quem olhar pode pensar que tudo não passa de uma enorme coincidência ou então da maldade do presidente sportinguista. Mas se juntarmos as peças, uma por uma, chegaremos àquela velha máxima de que não existem coincidências.
Este vídeo do Porto Canal estará esquecido dentro de dias. Obviamente que nenhum jornalista sério quererá vasculhar o que significa aquela "cartilha" revelada, porque actualmente não convém à agenda mediática atacar o clube da Luz. Imaginem se um jornalista sério e sem medo de perder a sua promissora carreira começava a vasculhar as redes de amigos do EL. Imaginem que ele começava a analisar a rede de distribuição da "cartilha" semanal e de repente tropeçava numa ponta solta, do género de uma ligação perigosa entre alguém da comunicação do benfica com algum político influente, quiçá até um ministro. E que essa ligação serviria, por exemplo, ou para puxar para a agenda política algum negócio do Sporting. Ou esconder dessa agenda algum negócio do benfica ou de algum dirigente seu... Era um molho de brócolos! Portanto, para evitar tanta chatice, seria mais sensato colocar essa investigação na mesma prateleira que está a investigação aos Panamá Pappers. E manter a aura mítica e lendária do Estado Lampiânico.
No entanto, que estas notícias sirvam para que os sportinguistas percebam, mais uma vez, qual a natureza do inimigo que temos pela frente. E também percebam que temos de continuar de pé firme e a cerrar fileiras, pois só assim juntos e unidos poderemos conseguir derrotá-lo.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A espuma dos dias

Entre os dias que mediaram o jogo da nossa selecção contra a Hungria até ao jogo do clássico, assisti impávido e sereno a um desfile de "anormalidades" que pensei já não voltar a ver tão cedo. 
Muita coisa se passou nesses dias. Um clube decidiu boicotar um jogo da selecção. Esse mesmo clube, que é conivente com claques ilegais no seu estádio, criticou a FPF pela forma como esta apoia uma claque também ela ilegal. Pelo caminho ficaram ameaças a órgãos federativos, agressões a dirigentes desportivos que se deslocaram civilizadamente ao estádio a convite da federação. No dia do clássico a cereja no topo do bolo: esperas à claque adversária com o lançamento de bolas de golfe contra a mesma. O comportamento da claque "suportada" pela FPF também ela foi alvo de críticas, pois terá entoado cânticos contra o clube que cedeu o estádio à federação.
Pelo meio, o clube que boicota os jogos da selecção e cujos "grupos de adeptos" tentam agredir dirigentes de outros clubes, publicitou um filme da sua fundação, onde supostamente procura promover o fair-play.
No dia seguinte ao clássico, um clube de futebol que tem semeado o medo e o pânico na divisão de elite da AF do Porto, sobe à ribalta e abre os noticiários dos principais canais, graças à agressão gratuita do seu ponta-de-lança ao árbitro, depois de ter feito o mesmo a um jogador adversário.
Este relato do que aconteceu na última semana parece saído de muitos outros relatos que ouvimos nos últimos 20, 25 anos. Agressões, impunidade, branqueamento. Guerra norte/sul, andrades contra lampiões, sistema versus estado lampiânico. Apenas um ponto que destoa neste quadro negro, que tem sido a caricatura do nosso futebol contemporâneo. E que ponto é esse?
Na semana passada, enquanto o país futebolístico ardia com a guerra entre andrades e lampiões, ficou-se a saber que Bruno de Carvalho foi suspenso por 113 dias, devido a palavras injuriosas (!!!) contra Vítor Pereira. BdC reagiu criticando o teor da decisão do conselho de disciplina da FPF, o que lhe valeu a instauração de novo procedimento disciplinar...
A Espuma dos Dias é um conhecido livro de Boris Vian, que vos aconselho a ler. A "espuma" que está referido do título não é mais do que a reflexão sobre a fragilidade da existência humana, num mundo onde toda a felicidade é apenas aparente. 
No futebol português, aceitou-se a aparência de que tudo o que aqui corre mal é culpa do Bruno. O Bruno insulta, maltrata e ultraja. O nosso futebol é um grupo de cavalheiros mais o Bruno. O Bruno está a mais, estragou o futebol português, merece ser corrido. Coitada daquela lagartagem, uma autentica carneirada, que se deixa iludir pela banha da cobra que o Bruno vende. Esta é a aparência que nos vendem, onde só há felicidade sem o Bruno. Onde só é bom o que o Bruno critica. E justas são as penas que condenam o Bruno, por mais estupidamente desproporcionadas que sejam. 
A realidade é no entanto outra: agressões, violência e ameaças, sem que - oh, pasme-se!!! - o Bruno intervenha. Os exercícios de branqueamento levados a cabo pelo vídeo da fundação benfica, uns dias após adeptos seus tentarem agredir Jaime Marta Soares no seu estádio, ou a forma como Lourenço Pinto mitiga o comportamento violento do Canelas 2010, contra quem os adversários já se recusavam jogar, não conseguem esconder-nos a espuma da realidade. Essa triste e infeliz realidade, de que o actual estado de podridão do futebol português está, fatalmente, ligado a porto e benfica. E não é, afinal, por culpa do Bruno.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Rescaldo das eleições III - A Bardamerda

Momento escusado para uns, corolário da vitória para outros, as opiniões sobre o "Bardamerda para quem não é do Sporting" dividem mais os sportinguistas do que a escolha do novo presidente.
Para que fique claro, eu não sou fã deste tipo de discursos, em linha com a conversa das nádegas. Tenho a opinião que Bruno de Carvalho é uma pessoa que gosta de ser sarcástica e irónica. Costuma-se dizer que o sarcasmo é um traço de personalidade inteligente. Não sei se é verdade ou não, mas como eu também gosto de utilizar sarcasmos, sei por experiência própria que é fácil incorrermos em mal-entendidos. Se é porque os nossos interlocutores são menos inteligentes, se é porque na verdade somos umas bestas arrogantes, não sei. O que sei é que aprendi ao longo da vida a ser sarcástico só com pessoas que me conhecem o suficiente para saber quando é que estou a falar a sério ou estou a gozar. Ou quando estou irritado com algo.
Ora, uma coisa é este reles boneco de cinema incorrer em mal entendidos, outra coisa é o Presidente do Sporting. E quais foram os mal-entendidos que daqui ocorreram? Desde logo a conversa xoninhas daquele lampião ou andrade, que com um ar muito casto diz-nos ofendidos que o nosso presidente mandou-o a ele, à sua mulher, à sogra, aos filhos e ao canário - são todos benfiquistas - à bardamerda. Ou seja, o Bruno subiu ao palco, pensou em 7 milhões de pessoas, e mandou-as para a banda de lá. Um estupidez, portanto. Outro mal-entendido daqui criado é que o Presidente do Sporting é um mal-educado. Trata todos mal, desde o presidente do FCP, ao Sr. velhinho do Arouca, à malta daquela discoteca madeirense que foi lá falar como ele, ao Marco Silva, à ex-mulher, etc. Só faltava agora ser mal-educado para 2/3 do país. Quanto até o Paulo Pereira Cristóvão já lhe quer dar lições de bom comportamento, por aqui me fico.
Se Bruno de Carvalho não tivesse recorrido ao sarcasmo ou ironia para o discurso da vitória de 4 de Março, teria dito algo assim parecido: toda a gente veio meter o bedelho (ui, ofensivo!!!) nas eleições do Sporting, mandar palpites e até sondagens aos adeptos dos nossos rivais fizeram. Pois bem, agora enfiem o rabinho entre as pernas (huummm, demasiado ofensivo???) e ide pregar para outro lado. Deixem-nos em paz, o Sporting é nosso, dos sportinguistas!!! Xô galinhas (mais ofensas???), lá para dentro!!!
As pazadas de areia para os olhos dos sportinguistas já começaram a ser mandadas, como sempre pelos imparciais e impolutos jornalistas. Como seria de esperar, reduziram todo o acto eleitoral ao discurso da vitória, não se coibindo inclusivamente de tecer considerações morais sobre BdC.
Há algo de Trumpiano nesta vitória eleitoral de Bruno de Carvalho. À semelhança da eleição americana, também a vitória esmagadora do Bruno foi contra todas as previsões, presságios e anseios da classe jornalística. O que está aqui em causa não é se o Bruno é igual ao Trump, mas sim que eles - os jornalistas - já não tem o poder de moldar as opiniões com dantes. Já não são levados a sério. Preferimos ler o Mister do Café ou o Artista do Dia às patranhas do Jornal de Negócios ou da imprensa desportiva. E é isso que eles não perdoam. E é por isso que eles nos odeiam.  
Bruno, a malta percebeu muito bem o que é que se andou a passar por aqui nestes últimos quatro anos, por isso é que demos aquela monumental chapada de luva branca no dia 4 de Março. Não era preciso tu mandares ninguém à bardamerda, pois nós já tínhamos feito isso por ti horas antes. Não dês mais motivos àqueles jornalistas de cadeira e copy/past para falarem mais de nós. Da próxima vez basta que nos olhes nos olhos e sorrias. Nós iremos perceber e tu perceberás que nós percebemos. E olha, lê o que escreveu o Captomente e mais nada!