quarta-feira, 1 de maio de 2019

De manhã começa o dia...

Foram dois grandes jogos. Primeiro contra a nossa besta negra do futsal, o Inter Movistar. Não nos debatíamos só contra o campeão europeu, também lutávamos contra aquela fatalidade que atinge sempre o nosso clube nos momentos decisivos. Ou "À terceira era de vez" ou "Não há duas sem três". E nisto dos adágios populares, sai-nos sempre o pior na rifa. Quis a História (e o empenho dos jogadores e equipa técnica) que passássemos esse Bojador que é a equipa de Ricardinho. Faltava-nos passar o cabo das Tormentas e transformá-lo na nossa Boa Esperança. E se há clube no mundo que consegue passar o difícil para se estatelar no fácil, esse clube é o Sporting. Mas os nossos não tremeram. Mandaram às malvas todo o fatalismo e maus presságios que nestas alturas se levantam e arrancaram para uma vitória épica e histórica.
A festa no Cazaquistão foi bonita, assim como foi a sua continuação em Lisboa, mesmo sem espera no aeroporto. Foi uma tremenda manifestação de sportinguismo, que não se via desde sei lá quando. Numa altura em que o clube vive uma guerra fratricida, a falta que faz uma festa destas. Foi bonita, linda, espetacular e tantos outros adjectivos que me faltam para caracterizar aquela grande festa.
Parece no entanto que no meio de tanta hora de festa, algures no turbilhão de alegria e excitação que estas celebrações demonstram, alguém decidiu cantar uma música que fala de foder lampiões logo pela manhã. Foi o suficiente para lá termos de levar com aquela até então silenciosa mas ressabiada mancha negra do nosso vizinho da segunda circular. Lampiões indignados com aquele cântico, rasgavam as suas vestes como o Macaco em Vila do Conde. Clamavam por ouvir uma condenação da nossa parte, ao mesmo tempo que nos chamavam pequeninos por não nos esquecermos deles no momento dos festejos.
Se há coisa que os nossos vizinhos detestam, é ver os outros festejar seja o que for. O episódio de ligar o sistema de rega do relvado enquanto o porto festejava a vitória é paradigmático. As capas dos jornais desportivos afectos ao benfica, no dia seguinte a vitórias europeias de outros clubes, também é disso um bom exemplo. No final de contas, a sua postura não é muito diferente dos adversários, que também ficam azeados quando é o benfica que ganha. A diferença é que uns assumem a rivalidade, enquanto outros atiram-nos com a treta dos dois clubes de Portugal, o benfica e o anti-benfica, preferindo vomitar a sua bílis escondidos, ficando à espera de uma qualquer pretexto para sair do seu esconderijo e impingir-nos a sua pseudo-moralidade falsa e arrogante.
O clube cujos adeptos imitam constantemente o som do very-light, cantam com alegria "a cabeça do Ficcini" ou "deixem a lagarta morrer", está indignado por uns minutos de música numa festa só nossa. Dizem-me que é diferente, que o very-light ou a cabeça do Ficcini só são entoados nos jogos contra nós, enquanto nós cantamos "quem não salta é lampião" até quando jogamos contra o Oleiros. Como se fosse atenuante cuspir-nos na nossa cara, em vez de nas nossas costas. Ou, mais gritante ainda, se "foder lampiões pela manhã" fosse tão grave como cantar sobre mortes que ocorreram. "Ah e tal, mas foi o vosso speaker que começou, logo é uma posição oficial do clube!". Perante este argumento lampiónico, digo apenas que João Gabriel e o Folclore se estarão a rir às gargalhadas.
Fico incomodado quando oiço cânticos a chamar macaco ao Eusébio ou quando vieram com a Chapecoense num jogo de hóquei contra o porto, porque estamos a insultar uma pessoa directamente de forma ignóbil ou porque estamos a trazer à baila uma tragédia que aconteceu. Agora, num meio onde é usual ouvir-se e gritar-se palavrões, ter de levar com gente indignada por causa duma música onde está um "foder", é caso para se dizer: Bardamerda para vocês todos.
Quanto ao facto de cantarmos "quem não salta é lampião" ou "de manhã começa o dia, a foder os lampiões", tenham paciência. Vocês são nossos rivais e não gostamos de vocês. Assumimos isso há muito tempo. Rivalidade é isto, é picarmos os outros, sem termos de ser rasteiros. Porque depois, ao final do dia, lá estaremos todos juntos a beber minis no café da esquina. 
Não somos hipócritas para dizer que não falamos dos outros. Somos sinceros.
Não somos sobranceiros para dizer que estamos acima das rivalidades. Assumimos essa rivalidade.
Não somos arrogantes ao ponto de afirmarmos que não ligamos aos rivais. Sem rivalidades o futebol teria tanta paixão como o campeonato nacional de mini-golf.
Somos nós. Somos sportinguistas.

domingo, 31 de março de 2019

E novidades, há?

Hoje resolvi sair da letargia a que me votei nestes últimos tempos, para tentar perceber se há novidades no mundo sportinguista.
Começamos pelo nosso treinador, o bem falante, bom desportista e entendedor Marcel Keizer. O holandês lembra-me aqueles professores do secundário, a quem reconhecemos qualidades comunicativas, que conseguem levar-nos a fazer introspecções para conhecermo-nos melhor a nós próprios. Ou seja, brilhantes académicos mas que nunca puderam os pés no mundo real. Keizer é isso mesmo, um académico cheio de grandes ideias e concepções utópicas do mundo futebolístico. Mas depois chega a hora de meter os pés na rua e é ver Gudelj a arrastar-se em campo, até que o mestre da tácita académica chegue à conclusão que já deu tempo a mais ao adversário (mais de 60 minutos) e lá lança Doumbia.
Mas nem tudo está mal com Keizer. Ontem voltou a lançar Jovane em campo, com tempo suficiente para o jovem conseguir fazer algo de útil no jogo e agitar as águas. Faltou lançar Geraldes aos 90 minutos, ficando aqui a dúvida se não o fez porque entretanto foi obrigado a meter Gaspar no jogo ou porque já nem para isso Geraldes conta. 
Quanto a voltarmos a ver Bruno Paz a jogar, ou até Pedro Marques, Joelson, Thierry, entre outros, parece-me que teremos de esperar por muito tempo. O discurso de Keizer até entusiasma, pois dá a ideia de que estes jogadores contam para o holandês. Mas lá está, no final é Gudelj e mais dez e o resto é conversa. Perante a expectativa de ver Keizer mais uma época no nosso banco, sinto a mesma alegria que sentiu Maria Antonieta a subir os degraus em direcção à guilhotina.
Durante o jogo, mais uma arbitragem inacreditável de um dos melhores representantes desta nova geração de árbitros. O lance sobre Raphinha é duvidoso, mas transformar um corte limpo de Ristovski numa agressão é estúpido, absurdo, indigente, idiota. Pegar num lance onde o jogador vai unicamente à bola, derrapando depois e acertando sem maldade no adversário, e transformá-lo numa agressão, quando no mesmo jogo há pelo menos duas sarrafadas às pernas de jogadores flavienses a Bruno Fernandes, é pura maldade.   
Mas isto é a posição que o poder instituído quer que seja a posição do Sporting. Quanto mais em baixo estamos, mais prazer tem em nos pisar. No ano do sétimo lugar, lembro-me de inúmeros lances parecidos com este, como aquela expulsão inacreditável de Dier em Vila do Conde, por exemplo. Pisam-nos com requintes de malvadez, mas depois assomarem às televisões e, com o ar mais hipócrita do mundo, dizerem que faz falta um Sporting forte ao campeonato português.
E perante isto, o que diz o nosso presidente? Nada. Não diz nada (é melhor assim) e nem faz nada. Na final-four da Taça da Liga teve um assomo de coragem e atacou (e bem) a hipocrisia bracarense, para depois meter o rabinho entre as pernas assim que Salvador subiu o tom da sua voz. Os acontecimentos de ontem mereciam uma veemente tomada de posição da nossa parte, daquelas que dão origem a castigos de um mês. Mas não, quem nos preside lá entende que é melhor assim, seguirmos o nosso caminho serenos e silenciosos, pois muito provavelmente saberá que o pior ainda estará para vir...
Ao fim deste tempo todo de silêncio pergunto-me "E novidades, há?".
E lá chegou à triste conclusão que mais vale recolher à minha triste letargia, restando-me cumprir com dignidade a minha anónima missão de apoiar o Sporting Clube de Portugal. Quando houver novidades, apitem.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

A Tragédia

A tragédia do passado domingo não começou naquele dia. Para contarmos a sua história, temos de recuar até ao Verão de 2018. Algures entre Junho e Agosto.
Em finais de Junho de 2018, estava a nação sportinguista empenhada na luta fratricida que resultou na destituição de Bruno de Carvalho como presidente do Sporting Clube de Portugal. A comissão de gestão que assumiu transitoriamente a direcção do clube, bem como a administração da SAD que esta nomeou, tiveram em mãos a tarefa hercúlea de iniciar a preparação da época a mês e meio do seu inicio.
Com a maior parte dos melhores jogadores do plantel de abalada, com o despedimento do treinador contratado pela direcção anterior, com a tesouraria da SAD embargada devido ao adiamento do empréstimo obrigacionista, parecia estarem todas as condições reunidas para que esta época fosse uma época não de zero, mas de -1, como foi a de 2013/2014. Ninguém no seu perfeito juízo poderia exigir-nos a conquista do título de campeão nacional 2018/2019, pelo que poderíamos enfrentar toda a época sem essa constante pressão de sermos os melhores. Sem o chato do anterior presidente para apertar com os meninos, e com os candidatos a presidente a darem de barato esta época como perdida, parecia estar tudo preparado para um reset no Sporting.
Com JJ fora, havia condições para voltar a apostar na nossa miudagem, até porque as rescisões do verão criaram um imenso espaço para eles. A falta de folga na tesouraria era uma desculpa mais que aceitável para justificar um parco investimento do plantel. A contratação de Peseiro para treinador principal era o primeiro motivo de desconfiança, mas face à baixa fasquia com que iniciávamos a temporada, até era aceitável o seu regresso a Alvalade.
Durante o verão chegaram algumas boas notícias. Afinal Bruno Fernandes, Bas Dost e Bataglia voltaram atrás na sua decisão de rescindir unilateralmente, ajudando a emprestar alguma qualidade ao tal reset que teríamos de fazer este ano. Mas foi sol de pouca dura.
Incompreensivelmente, a SAD liderada por Sousa Cintra preferiu enveredar por outros caminhos. Dispensaram-se jogadores da casa e acarinhados, como Francisco Geraldes, Matheus Pereira, Demiral, Domingos Duarte, entre outros, para abrir espaço a Gudelj, Sturaro ou Diaby. Nani, apesar de pouco acrescentar à equipa, vale pelo facto de ser um dos nossos símbolos. 
Depois começaram os nós górdios. Primeiro a novela Sturaro, muito mal contada e que espero que não tenha nada a ver com a ida de Ronaldo para a Juventus. Depois as cegadas com o estágio da pré-época e os jogos de preparação. A novela Viviano logo no primeiro jogo oficial. Por fim, a fraca qualidade exibicional da equipa. Qualquer semelhança entre este Sporting e o de 2013/2014 era pura coincidência.  Coincidência mesmo era o facto de termos começado na frente, fruto das vitórias arrancadas a ferros nos primeiros jogos, bem como de um empate sufocante na Luz.
Diz a Lei de Murphy que se alguma coisa pode correr mal, então vai correr mal. E nunca um clube do mundo tem tanta apetência por comprovar as Leis de Murphy como o Sporting Clube de Portugal. O resto já todos sabem: um arrastar tenebroso ao longo da época, apenas intervalado pela leve esperança de um interlúdio holandês da nossa sina.
Marcel Keizer prometeu muito e ainda hoje choro baba e ranho quando tento saber do que foi feito daqueles jogadores que deram aquele recital de bola em Vila do Conde. Mas numa época marcada por equívocos, também Marcel Keizer se enrolou neles, ao ponto de hoje não sabermos o que é que quer para esta equipa. Não vou aqui analisar a sua abordagem ao nosso último jogo, pois não tenho paciência nem vontade para essa auto-mutilação. Dou apenas este exemplo: quando a perder por 1-4, Keizer decidiu-se a fazer a segunda substituição por volta dos 80 minutos, fazendo entrar Petrovic em jogo. Já o médio despia o fato de treino, quando Diaby marca o golo que lhe seria anulado. Keizer, desistiu de meter Petrovic, convencido que "só" teria de recuperar dois golos, quando se apercebe da decisão do VAR de anular o golo. Voltando à estaca zero, seria de esperar que Keizer recupera-se a ideia anterior de lançar Petrovic. Mas não, afinal parecia haver um plano B (ainda estou a tentar perceber como iria implantar o plano A), e aos 85 minutos lá resolveu lançar Jovane Cabral na equipa, para o lugar de... Raphinha.
Eis a tragédia.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

#NotKeizerBall

Poucochinho.
Antes do jogo, ouvi muito sportinguista a lamuriar-se da tragédia que estaria prestes a chegar. Sérgio Conceição iria entrar com tudo em jogo e só a ajuda divina nos poderia impedir de sermos goleados no nosso próprio estádio. O jogo em si não revelou a tão temida humilhação em casa. Pelo contrário, até foi equilibrado. Quem não soubesse da classificação das duas equipas até seria tentado em concordar que, pela forma como decorreu a partida, o empate satisfez as duas equipas. Aqui começaram os nossos problemas.
Tarde fantástica de Janeiro, com muito sol, muita gente, muitas famílias a deslocarem-se ao estádio, numa tarde onde revivi os clássicos vespertinos nos idos anos 80. A hora do jogo confirmou tudo aquilo que sempre soubemos mas que alguns teimam em ignorar: o futebol disputado à luz do sol faz toda a diferença. O ambiente estava propício a um grande espetáculo de futebol, com o estádio cheio e as claques a puxar pelos seus clubes. Infelizmente o futebol jogado não correspondeu à envolvência. Poucas oportunidades de golo, num jogo mais tático do que espetacular. No final o empate não nos serviu para nada que não a constatação do óbvio, de que este ano, em matéria de primeiro lugar, estamos conversados. O resto logo se verá.
Pedir a uma equipa onde Jefferson, Bruno Gaspar, Gudelj e Diaby são titulares, com duas substituições forçadas pelo meio, que ganhasse ao porto, já saberíamos que não seria tarefa fácil. Mas estando nós a uma distância já tão considerável da frente, e estando a jogar em casa, pedia-se mais à equipa que o mero controlo do seu adversário. Insistir na titularidade de Diaby com Raphinha já  recuperado, soa-nos pouco racional. Marcel Keizer teve um momento no jogo, já na segunda-parte, onde poderia ter arriscado e trocava o lesionado Wendel por Jovane ou Luiz Philippe, forçando um assalto final à baliza de Casillas. Arriscava dar espaço ao adversário e até a perder o jogo, mas para quem privilegia o futebol de ataque, não esperava outra coisa. Até porque, nesta altura estar a 8 ou a 11 pontos do primeiro seria quase a mesma coisa. Mas estar a 5 ou a 8 pontos faria muita diferença. Se Keizer espera mesmo que o porto perca 8 pontos nesta segunda volta (ou até 10 ou 12, vá) continua a demonstrar que não conhece a realidade do futebol tuga. Nem tem a seu lado que lhe explique.
Keizer não passou de treinador bestial para banal, mas tem havido nestes últimos jogos alguns equívocos da sua parte que me tem deixado com a pulga atrás da orelha. É certo que já as goleadas contra Aves e Nacional foram enganadoras, pois foram precedidas de entradas em falso da nossa equipa. Mas nestes dois casos houve força e engenho para dar a volta. Ver a incapacidade de criarmos situações de perigo em Guimarães e em Tondela, bem como o entorpecimento da equipa durante o jogo contra o porto, deixa-me derreado. O que mais me irrita nisto tudo, é que com tanta esperança na mudança da filosófica de jogo, chamando inclusivamente mais a jogo os nossos miúdos, voltamos a jogar o mesmo futebol que jogávamos quando Peseiro era o treinador. Keiser tem agora a oportunidade de ouro para demonstrar o que vale enquanto homem do futebol. Se tem capacidade para abanar os jogadores e voltar ao registo de quando entrou no clube. Se não conseguir cumprir esta tarefa, continuando a enrolar-se nos equívocos que se tem envolvido nos últimos jogos, não lhe auguro um grande futuro como treinador do Sporting.
Entretanto, bastou umas horas a navegar pelas redes sociais para descobrir (mais uma) polémica entre sportinguistas. Um grupo de miúdos resolveu tirar uma foto onde gozava com a velha máxima Rui-Patriciana de "levantar a cabeça" e com a dicção do nosso presidente. A enxurrada de posts indignados com o raio dos fedelhos, seguidos de outra não menor avalanche de posts enaltecedores dos novos libertadores do sportinguismo, levaram-me a pensar se, afinal, não é só o treinador mas todo o Sporting Clube de Portugal que está a viver um grande equívoco.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Como é que ao fim de quatro anos ainda nos deixamos surpreender em Tondela?

O jogo de ontem em Tondela trouxe-me à memória aquele velho Sporting, que muitos julgavam já morto e enterrado, incapaz de marcar mais de um golo contra uma equipa que luta pela manutenção, mesmo tendo a vantagem de jogar mais de meia-hora em superioridade numérica. E como foi que chegámos a este ponto de retrocesso?
Vários factores contribuíram para o desastre. Em primeiro lugar, a preparação do jogo. Ainda não sei porque motivo Jovane Cabral ficou de fora dos convocados, nem qual foi a razão de não ter chamado Luiz Phillype como segunda opção para o ataque. Além destes equívocos cuja responsabilidade só pode ser assacada a Keizer, descurou-se novamente outro aspecto que eu considero fulcral: o completo ignorar de que estes jogos são "diferentes". Qualquer adepto do Sporting sabe que o Tondela esfarrapa-se todo nos jogos contra nós. Qualquer adepto do Sporting deseja que nestes de jogos a equipa entre em campo raivosa e de orgulho ferido. Quatro épocas depois, continuamos a dar o flanco e a surpreendermo-nos com a forma como os tondelenses jogam contra nós. É demais, estou farto desta sina. Keizer pode ter a desculpa de ter chegado há pouco tempo e não conhecer estes minudências do futebol tuga mas, caramba, os jogadores que todas as épocas sabem como estas equipas se transfiguram contra nós, bem como os dirigentes, tão sportinguistas como nós, não tinham obrigação de preparar a sério este tipo de jogos?
Depois foi o desenrolar da partida. Como li por aí algures, não é possível esperar que a nossa equipa se superiorize ao Tondela quando temos jogadores no nosso plantel que estão ao nível de jogadores do Tondela. Bruno Gaspar não passa de uma cópia sombreada de Schelotto, Gudelj está ao nível de Zapater, Diaby tem momentos no jogo que fariam Djaló parecer um fora de série. Wendel não dá para mais do que uma promessa de jogador. Coates e Mathieu não conseguem fechar as brechas que se abrem nas alas e no meio-campo, acusando ao longo dos jogos demasiados momentos de desconcentração. A inspiração de Bruno Fernandes, Bas Dost, Acuña, Raphinha ou Jovane até pode chegar para mais de metade das equipas da Liga, mas é claramente insuficiente para algo mais do que o terceiro ou quarto lugar. 
No final do jogo, a cereja no topo do bolo: o tempo de desconto rídículo e o cartão amarelo a Acuña. Ano após ano, continuamos a enxovalhados pelas manigâncias destes árbitros.
Não quero começar já o discurso do "para o ano há mais", pelo menos antes de jogar com o porto em casa. Contudo, sou levado a admitir que vencer o actual líder será uma tarefa hercúlea, quase milagrosa. Resta-nos concluir a época da melhor forma possível (temos ainda mais três competições para disputar), mas começando a delinear com seriedade o que queremos destes jogadores nos próximos tempos.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Nós, as lampionices e as andradices

Lampionices.
Como seria de esperar, Rui Vitória lá teve de seguir o seu solitário caminho até à porta de saída do Seixal. O actual momento lampiónico precisava de um bode expiatório, papel esse que assenta que nem uma luva ao treinador entretanto despedido. Vitória, apesar dos títulos conquistados, estava completamente desacreditado junto da massa associativa encarnada. Não conheço nenhum benfiquista que, nesta altura, ousasse conceder uma ponta de benefício de dúvida ao treinador que conquistou o recorde de 88 pontos num campeonato. Isso diz muito do que os benfiquistas pensam do mérito da pessoa que treinava o seu clube nessa época. Sem carisma, sonso, com um discurso cheio de vacuidades, sem pinga de espontaneidade, certamente que Vitória irá desaparecer algures pelos desertos das arábias ou pelas estepes asiáticas, pois não acredito que algum clube europeu de topo o queira contratar. 
Apesar dos contratempos da nossa justiça, que não é propriamente conhecida pela sua celeridade, não há dúvida que o Estado Lampiânico ficou combalido com tudo o que saiu sobre o seu mecanismo. Os "padres", as "missas", o conluio com os "grupos de sócios organizados", as cartilhas com comentadores e jornalistas, as facilitações aos "clubes amigos" e, mais importante ainda, a queda de Paulo Gonçalves. Este rombo que o EL levou nos bastidores do futebol português acabou por se reflectir na performance da equipa no campeonato. A mediocridade do futebol lampiónico, que já era bem visível nas últimas campanhas europeias, ainda era por aqui disfarçada com a ajuda dos "padres", "missas", Bragas e Tondelas. Com o tempo, os "padres" foram-se afastando, chegando ao ponto "cereja em cima do bolo" de já expulsarem Jonas. Os clubes pequenos já vão batendo o pé ao clube DDT, pelo que se tornava cada vez mais difícil ao "Rei Midas" explicar aos seus sócios como é que a equipa que há duas épocas fez 88 pontos, apresenta hoje uma mediocridade de futebol (excepto com o Braga, claro está). Rui Vitória assumiu assim as vestes de "cordeiro pascal", sendo lançado aos lobos sem apelo nem agravo. Vieira ganha alguma margem de manobra, pois terá sempre a desculpa de ter de partir do zero a meio da época. Os adeptos, embalados pela mão presidencial e pela cartilha jornaleira, que ao contrário do que fizeram com Peseiro não perderam tempo em denegrir o trabalho do campino de Vila Franca de Xira, ficam assim com a sua atenção desviada do essencial. E o "essencial" desta história está bem à vista de todos: sem Paulo Gonçalves e os seus expedientes, este benfica é banal.

Andradices.
Com o ocaso do Estado Lampiânico, adivinhem quem é que voltou a aparecer? O Sistema, não ainda o velho Sistema da fruta e das viagens para o Brasil, mas que para lá caminhará se não lhe puserem a mão. Esta jornada mais uma vitória tangencial, mais uma ajudinha milagreira. Podem refilar que o protocolo do VAR não permitiria anular aquele lance, mas não é por isso que ele não deixa de ser ilegal. Já perdi a contagem aos lances duvidosos cuja avaliação, nesta época, descai sempre para o lado dos andrades. Os "padres", percebendo de que lado toca agora a música que embala as suas missas, lá se começaram a adaptar à nova realidade. É voltar a ver Maxi Pereira a passear incólume pelos relvados, acompanhado por Felipe.
Empurrados pelos seus novos amigos, os andrades lá vão conseguindo passar "à rasquinha" nos vários jogos que tem disputado. Por enquanto ainda conseguem disfarçar as suas limitações com a "garra" ou "força de vontade" com que conseguem entrar em jogo. O seu futebol é semelhante ao da última época, marcada pelas correrias dos seus avançados e constante bombeamento de bolas para a frente. Não é um futebol bonito mas é eficaz. Veremos até quando dura essa eficácia.

E nós.
O Sporting vai seguindo o seu caminho. A derrota de Guimarães foi justa, pois foi o espelho de uma exibição fraca frente a um Vitória que jogou muitíssimo bem. Foi este Vitória que ganhou no porto, virando um resultado de 2-0 para 2-3, e que perdeu pela margem mínima na Luz. Foi um tropeção desnecessário, pois vimos aumentar a distância para o primeiro classificado, mas foi justo. Entretanto conseguimos o apuramento para a final-four da Taça da Liga e voltámos às vitórias no campeonato, diante de um difícil Belenenses. As exibições continuam bem acima das do tempo de Peseiro, mas sentimos que ainda falta muita coisa para apurar. O ataque ao mercado de Inverno, onde até agora só se contratou um avançado e fez-se regressar Geraldes, ainda está longe de ter respondido aos nossos anseios. Continuo a achar que precisávamos de melhores defesas laterais, mais da direita do que da esquerda. E mais opções para o meio-campo, que como se viu nos últimos jogos, fica logo abalado com lesão ou castigo de um dos seus titulares. Aqui não compreendo como se possa considerar que um putativo empréstimo de Adrien não seja uma boa aquisição para a equipa. Adrien será sempre uma opção muito válida no nosso plantel, seja como titular ou como substituto, pelo que ficaria muito satisfeito com o seu regresso.
Quanto aos negócios mendianos que neste Inverno voltámos a fazer, falarei disso num outro post. Mas não posso deixar de expressar o meu desalento pelo facto de, mais uma vez, termos dado mostras de não ter memória, deixando entrar em nossa casa quem muito fez para a destruir.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

As iludências aparudem

Quem aterrar hoje no planeta Terra e descobrir que uma equipa em Portugal ganhou dois jogos seguidos em casa por 4-1 e 5-2, certamente achará que estamos perante uma equipa avassaladora e demolidora. Ou não.
Quem esteve em Alvalade nos dois últimos jogos certamente que sentiu o mesmo que eu: um Sporting com muitas dificuldades em entrar no jogo, revelando uma estranha apatia peseirista, perante adversários bastante audaciosos na forma como procuraram acercar-se da nossa área. Em ambos os casos começámos por perder (e bem), mas fosse por génio individual ou por inspiração colectiva, lá acabámos os dois jogos em cima do adversário e a cilindrá-lo. Pelo meio preocupam-me as dificuldades inesperadas que equipas de meio da tabela nos conseguiram criar, o que nos deverá servir de aviso de que ainda temos muita coisa para melhorar. No lado oposto temos a alegria de ver onze jogadores a jogar um futebol solidário, por vezes com rasgos de genialidade, com coração suficiente para virar uma péssima exibição com dois golos sofridos, transformando-a numa goleada à moda antiga. É difícil, quase contra natura, dizer que uma equipa que marca 9 golos em dois jogos, não está a jogar grande coisa. Mas também não me sinto confortavel em dizer que somos uma máquina de jogar futebol, como estes números parecem indicar. A realidade andará algures pelo meio, entre a genialidade de Bruno Fernandes, Bas Dost ou Nani, a disponibilidade de Coates, Mathieu ou Renan, o sangue quente de Acuña, a irreverência de Miguel Luís, os rasgos de Jovane e as alternâncias de Bruno Gaspar e Gudelj. Temos um onze-tipo onde jogadores fora-de-série partilham o relvado com jogadores banais. O colectivo que nasce desta mistura, que é afinal a grande obra de Keizer, consegue essa coisa espectacular de conseguir retirar dos jogadores o melhor que tem para dar. Os maus momentos durante o jogo são reminiscências de uma equipa que ainda procura o equilíbrio entre o genial e o medíocre. E nada melhor do que estarmos a menos de duas semanas da abertura da janela de transferências de inverno, para percebermos onde poderemos reforçar esse equilíbrio.
Assim de repente, saltam à vista as laterais defensivas. Bruno Gaspar continua-me a parecer um Schelotto de pele morena e Ristovsky, que considero melhor, está longe de ser um portento. No lado esquerdo as coisas não parecem melhores. Acuña cumpre a atacar mas os constantes constrangimentos disciplinares acabam quase sempre por anular o que de bom traz à equipa. Quanto a alternativas ao argentino, elas resumem-se a um Jeferson completamente fora de prazo e a um Lumor que continua sem convencer os treinadores que passam por Alvalade. 
Quanto ao resto dos sectores, não creio que o meio-campo esteja tão necessitado de sangue novo como as nossas laterais ofensivas. As lesões de Bataglia e Wendel criaram-nos constrangimentos temporários, mas são casos temporários (no caso do brasileiro). Parece-me razoável permitir o regresso de Francisco Geraldes, juntando-se a Miguel Luís e a Bruno Paz como alternativas razoáveis naquela posição. Sim, eu fui dos que ficou maravilhado com a estreia de Bruno Paz na quinta-feira e acho que temos ali uma pérola para trabalhar. Quanto a Bruno César, não é possível esperar mais dele do que uma boa alternativa para equilibrar a equipa a partir do banco, com o resultado já controlado. A sua titularidade ontem demonstrou ter sido um equívoco, que acredito que não se voltará a repetir.
Nas alas, o regresso de Raphinha trará mais uma excelente opção ao onze. Diaby continua a não me convencer, pois parece-me um jogador que joga a espaços e não de forma continuada. Vai cumprindo a sua missão, mas sem grandes rasgos. Jovane consegue agitar mais as águas, especialmente quando entra na segunda parte, faltando-lhe ainda consistência para fazer 90 minutos em alto nível. Nani, apesar da genialidade que empresta ao jogo, já não tem a disponibilidade física de antigamente, como se viu ontem. Diria que regressando Matheus Pereira, talvez ficássemos com as alas suficientemente equilibradas. Não regressando este, fará sentido um investimento avultado nesta posição? Não teremos alguém nos sub-23 capaz de ser alternativa?
Quanto ao ataque, neste momento temos apenas um avançado-centro de raiz. Podemos ponderar em fazer regressar Gelson Dala, mas estará o angolano em condições de substituir o holandês voador? Numa primeira fase de adaptação, Gelson Dala até poderia servir de complemento a Bas Dost, mas como avançado único, creio que não serviria. Mas entre comprar um Barcos ou apostar num Dala, que é que se seria preferível? Agora, se estivéssemos a falar em Slimani, isso já seria diferente...
Não me lembro da última vez que cheguei ao Natal só com vitórias em casa (para o campeonato). Mesmo com os constrangimentos dos últimos dois jogos para o campeonato, é visível que estamos a jogar um futebol apelativo e em crescendo. Temos uma equipa motivada e moralizada, com o melhor ataque do campeonato. Neste momento dependemos só de nós para ser campeões. É um objectivo exequível? É, mas ainda temos muitas dificuldades para ultrapassar e chegar ao nível dos nossos rivais directos. Mas deixem-me sonhar por agora. Venha de lá o Rio Ave e o Vitória de Guimarães, que eu quero é ver o Sporting a jogar!