terça-feira, 17 de julho de 2018

Eleições 2018: Ponto de situação das candidaturas

Ando há vários dias a tentar escrever aqui um balanço das várias candidaturas que até hoje se apresentaram. Mas tal tarefa revela-se sempre infrutífera, pois todos os dias temos novidades que nos obrigam a refazer o plano que já tínhamos delineado. Por isso, enquanto Benedito não oficializa a sua candidatura e Bruno de Carvalho não responde a Elsa Judas, vou tentar fazer aqui um ponto de situação.
Neste momento temos sete (espero ter contado bem) candidatos anunciados, sendo que é expectável que em breve este número mude. Primeiro, porque ainda não sabemos se será autorizada a candidatura de Bruno de Carvalho e Carlos Vieira. Segundo, porque da mesma forma que em 2011 alguns candidatos lowprofile desistiram, também me parece pouco provável que outros nomes menos conhecidos arrisquem ir em frente até ao dia da votação. Aqui incluo Fernando Tavares Pereira, que arrisco dizer que será um ilustre desconhecido para a grande maioria dos sócios do Sporting, bem como Zeferino Boal que é o eterno candidato desistente. Depois há a eternamente anunciada candidatura de Benedito, cujo anuncio finalmente deverá ocorrer na quinta-feira.
Sobre a esperada candidatura de João Benedito, tenho alguma curiosidade em saber onde é que o ex-guarda-redes de futsal vai fazer vincar a diferença para outros candidatos, nomeadamente Frederico Varandas. Estas duas candidaturas vem de dentro ou seja, são de duas pessoas que há bem pouco tempo participavam de forma activa na vida do clube, sendo bastante acarinhadas até ao momento em que decidiram romper ou afastar-se de Bruno de Carvalho. Benedito entrou em rota de colisão com o ex-presidente em 2016 e chegou a ser visto como candidato a disputar as eleições de 2017 contra BdC. Varandas rompeu com BdC há pouco mais de um mês e numa fase onde o clube estava muito fragilizado com a invasão de Alcochete. Ao contrário de Benedito, o timing escolhido por Varandas para romper com a direcção não foi propriamente feliz, tonando praticamente impossível de descolar o rótulo de oportunista à postura do médico. De resto, a postura de Benedito ao longo dos últimos dois anos foi sóbria. Não aderiu à moda de criticar a torto e a direito BdC antes do acto eleitoral de 2017, ao contrário da maioria dos seus críticos. Pelo contrário, preferiu manter a distância do então presidente, mas sem perder a postura. A decisão de não avançar em 2017 pode ser vista como cínica, mas também revelou realismo, pois reconheceu ser impossível destronar Bruno de Carvalho no auge da sua popularidade. Mesmo quando se tornou fácil bater em Bruno de Carvalho, Benedito preferiu resguardar a sua imagem, criticando o indispensável.
Varandas tem a grande vantagem de ter partido na frente e da sua candidatura já levar algumas semanas de avanço face a Benedito. Mas parece-me que tem vindo a perder o elãn inicialmente criado à sua volta. O destaque que a sua candidatura deu a figuras do croquetismo, desperta bastantes dúvidas e receios nos sportinguistas. Depois, a denotada impreparação do médico também não tem ajudado à sua afirmação. Varandas está longe de ser um orador arrebatador, o seu discurso é muito mastigado e a gaffe da secção de Padel é arrepiante. Quanto a Benedito, arrancando nesta altura onde Varandas começa a ganhar desgaste e tornando-se evidente que Bruno e Vieira serão impedidos de se candidatar, até que ponto não irá capitalizar os votos dos antigos apoiantes do CD deposto ou dos desiludidos com Varandas? Vamos esperar pelos seu programa, pelos seus projectos, pela sua equipa, para então sim, sabermos se esta candidatura tem hipóteses para se destacar das restantes.
Quanto às candidaturas de Pedro Madeira Rodrigues e Dias Ferreira, são regressos de figuras já conhecidas do universo sportinguista, sem grandes novidades do que já sabíamos. Pedro Madeira Rodrigues continua no seu registo pedante de "somos muita bons" e "temos uma granda equipa". Ranieri é um trunfo, apesar de me parecer algo extemporâneo. Se por acaso Peseiro fizer um excelente arranque de época, inclusive com um resultado positivo na Luz, será justo despedi-lo para lá colocar Ranieri? Não que Ranieri não seja superior a Peseiro, mas também não me parece um nome tão forte como PMR quer fazer passar. Dias Ferreira, que pelos anos que aturou e enfrentou Rui Gomes da Silva e Paulo Garcia merece todo o respeito e reconhecimento dos sportinguistas, parece-me um nome já sem espaço no espectro eleitoral leonino. Demasiado queimado pelo episódio dos "charteres" do Futre, não consigo descortinar que espaço poderá ocupar nas próximas eleições. Não o  vejo capaz de ombrear contra a máquina que suporta Varandas nem contra o prestígio que Benedito traz consigo. Ao mesmo tempo não o vejo com capacidade para captar os eleitores brunistas, que sem dúvida acredito que prefiram um candidato mais novo e menos comprometido com o pré-2013.
Hoje, perante o panorama de candidatos, aposto numa corrida a 3 ou 4 candidatos, entre Varandas, Benedito, Pedro Madeira Rodrigues e Dias Ferreira (se eventualmente não desistir). Com Bruno de Carvalho e Carlos Vieira de fora da corrida, em qual destes candidatos votarão os 29% de sócios que estavam contra a destituição do anterior CD? Ou ainda aparecerá outra candidatura, completamente conotada com o brunismo?

terça-feira, 3 de julho de 2018

Sporting Clube de Proscritos

Se pegássemos num qualquer livro sobre a história do Sporting e quiséssemos juntar todos os presidentes, treinadores e jogadores que ali estão referidos como proscritos do nosso clube, muito provavelmente juntaríamos um conjunto de pessoas que hoje estão ligadas ao clube. É como se de repente a História olhasse para trás e tentasse reescrever-se, quiçá dando-nos a oportunidade de a fazer a nosso contento.
Já escrevi sobre Sousa Cintra, o presidente que mais se aproximou do estilo e carisma de Bruno de Carvalho, numa época com metade do mediatismo de hoje. O homem das águas (a cerveja foi depois do Sporting), o algarvio que não queria contratar Mark Knofler, que despediu Robson e foi buscar o novo Eusébio ao Brasil (Careca, lembram-se?). Sousa Cintra, o presidente que quis trazer Pancev para juntar a um conjunto de estrelas onde brilhavam Ivkovic, Luisinho, Naybet, Valckx, Balakov, Iordanov, Juskowiak, Figo, Cherbakov, Capucho, Nelson, Carlos Xavier... Mas onde os resultados desportivos ficavam muito àquem da qualidade dos plantéis que se esforçava por construir, limitando-se a uma taça de Portugal e outra Supertaça (onde é que já vi isto?). Sousa Cintra, muito criticado pela elite do costume, daria em 1995 o lugar à "geração Roquete", com o resultado que se conhece. Apesar da aura "croquete" com que muitos agora decidem coroá-lo, Sousa Cintra é tudo menos croquete. É alguém que no passado sentiu muito (demasiado) o clube, muitas das vezes gerindo-o mais com o coração do que com a cabeça (soa-me familiar). Esta sua segunda passagem pelo clube é demasiado fugaz para que possa deixar uma marca diferente da deixada em 1995, mas suficiente para imprimir um cunho que irá marcar o desfecho final desta época... para o bem ou para o mal.
Para tal, Sousa Cintra foi buscar o treinador que mais se pareceu consigo nestes últimos anos. Alguém cuja equipa tenha decepcionado os adeptos na justa medida que os empolgou pelo futebol jogado em algumas partidas. Esquecendo Jorge Jesus, ainda demasiado quente nas nossas recordações, não restava outro nome que pudesse combinar com o antigo presidente que não José Peseiro. O homem que com um plantel onde reunia Nelson, Beto, Polga, carlos Martins, Hugo Viana, Moutinho, Liedson, Hugo, Miguel Veloso, Custódio, Tello, Rochemback, Saleiro, Danny, esteve perto de ser campeão e ganhar a taça UEFA, mas perdeu tudo numa semana. O treinador que tinha tanto de concepção atacante de jogo (as famosas "altas pressões"), como de fraco líder de balneário. José Peseiro ficaria irremediavelmente ligado ao medonho desfecho de 2004/2005, caindo logo no inicio da época seguinte. Seguir-se-ia Paulo "4ever" Bento, que apesar dos melhores resultados alcançados, preferia um tipo de jogo mais pautado e envolvente (o famoso losângulo), que ao longo dos anos tornaria o nosso futebol previsível e sonolento. Ainda hoje José Peseiro "paga as favas" da semana terrível de 2005 e basta ler os comentários dos sportinguistas nas redes sociais para concluirmos que esteve longe de ser uma contratação consensual. Valha-nos a memória de alguns jogos ganhos na raça (Newcastle ou Alkmaar, por exemplo), ou da forma de atacar desenfreada da sua equipa (e o reverso da medalha, que era a descompensação defensiva) e temos um cheirinho daquilo que pode ser o Sporting de 2018/19.
Para completar o ramalhete de proscritos, falta o principal, que são os jogadores. Salvo o regresso dos rescisores, que para já não passa de uma remota possibilidade, não se pode dizer que este plantel tenha jogadores mal amados pelos adeptos. A sua proscrição nos últimos anos deveu-se exclusivamente à opção técnica do nosso último treinador. Geraldes porque lia Saramago, Matheus, Gauld, Dala, por outros motivos que não passariam certamente pela sua falta de qualidade, irão juntar-se a Wendel que não percebe chinês ou a Lumor, o defesa esquerdo que se conseguiu arranjar. Acredito sinceramente que este conjunto de jogadores, mais as aquisições deste defeso, entrarão na próxima época com ganas para demonstrar que são muito melhores do que o nosso antigo treinador achava. 
Esta época do Sporting, que por estes dias se iniciou, lembra-me aqueles westerns, quando um conjunto de pistoleiros renegados se reúnem para levar a cabo uma missão que, à partida, se afigura impossível para o comum dos mortais. Invariavelmente, nesses filmes, vencem sempre os destemidos pistoleiros, emprestando à narrativa uma moral que passa sempre pela reabilitação dos heróis proscrito.
Será esse também o filme da época 2018/2019 deste Sporting Clube de Proscritos?

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Frederico Varandas

Ontem, no Twitter, tive a oportunidade de trocar algumas ideias com outros sportinguistas sobre a candidatura de Francisco Varandas, a primeira e até agora única candidatura para as eleições presidenciais de 08SET. Este meu post é apenas um resumo daquilo que hoje penso sobre a candidatura, ao mesmo tempo que tento desmistificar algumas coisas que foram sendo ditas sobre o antigo médico do Sporting.
Em primeiro lugar, devo dizer que o candidato em si não me entusiasma particularmente. Não possuiu a capacidade oratória do nosso antigo presidente, que era capaz de discursar ao longo de duas horas e deixar a audiência em êxtase. Sendo a presidência de um clube um cargo onde o carisma é uma das principais armas para mobilizar sócios e adeptos, creio que Varandas fica longe desse desígnio. Não deixa de ser curioso que uma das críticas mais recorrentes a Bruno de Carvalho era precisamente a "forma" da sua comunicação. O discurso carismático era frequentemente entendido como demagógico, além da recorrente acusação de que fomentava o "ódio" contra os rivais. Eu aqui acrescentaria que o que verdadeiramente incomodava era o facto desse tal discurso carismático vir do presidente de um clube cuja história recente desconhecia esse tipo de atributos. Se há aspecto que os presidentes do "roquetismo" tem em comum é que o seu carisma era o mesmo de uma couve. E se o Sporting hoje conseguiu recuperar muito do seu estatuto (financeiro, nas modalidades, até mesmo no futebol profissional onde se fez muito melhor do que nos anos anteriores), tal deveu-se ao carisma de Bruno de Carvalho, que conseguiu mobilizar os sportinguistas para as grandes realizações do seu mandato. Poderá o Sporting, num momento onde se instalou uma crise, conseguir recuperar o seu estatuto sem um presidente carismático?
Em segundo lugar, não posso deixar de demonstrar bastante tristeza com a forma como esta candidatura foi imediatamente lançada para a fogueira. Enquanto chefe do departamento médico do futebol profissional do Sporting, Frederico Varandas sempre se pautou por uma postura de grande profissionalismo e jamais permitiu que outros interesses se superiorizassem ao interesse do Sporting. Deixámos de contratar jogadores em estado físico duvidoso, como Jeffrén. Pelo contrário, houve coragem para reprovar nos exames médicos Boateng ou Sandro, por exemplo. E mesmo aqueles que mais reservas apresentavam no plano físico, como Fábio Coentrão, viram a sua carreira regenerada no Sporting, graças ao seu departamento médico. Resumir a sua passagem pelo departamento médico do Sporting a uma cunha metida pelo irmão, parece-me redutor e pernicioso. Dizer que Varandas é uma cópia de Pedro Madeira Rodrigues... é intelectualmente desonesto.
Em terceiro lugar, os seus apoiantes. E foi aqui, confesso, que fiquei mais surpreendido. Não esperava ver uma quantidade tão grande de antigos apoiantes de Bruno de Carvalho em torno desta candidatura, pelo menos enquanto não surgissem outras. Figuras como Daniel Oliveira, Pedro Boucherie Mendes, Manuel Moura dos Santos, Daniel Sampaio ou Eduardo Barroso. Por outro lado, não vi ali nenhum nome conotado com o croquetismo (está lá o Luís Paixão Martins, mas já vamos). Acho sintomático que alguns dos mais mediáticos apoiantes de BdC tenham aderido ao Varandas. 
Dos apoiantes de Varandas passo para o seu próprio discurso de apresentação, que considerei positivo. Pese embora as questões da "forma" que já abordei anteriormente, creio que o conteúdo merece a nossa atenção. Valorizou o legado de Bruno de Carvalho, do pavilhão, das modalidades e suas conquistas, da importância do clube manter a maioria na SAD, deixou uma mensagem de união aos adeptos. Sobre as rescisões preferiu ser comedido, o que foi logo entendido como uma predisposição para ceder aos jogadores. Veremos como as suas ideias evoluem ao longo da campanha eleitoral.
Por fim, a sua equipa propriamente dita. Do homem da parte financeira, Salgado Zenha, apenas reconheço a familiaridade com o falecido político. Não faço a mínima ideia se é competente, para que banco trabalha, qual a sua opinião sobre a reestruturação da SAD. Sobre o seu gabinete de marketing e comunicação, tenho algumas reservas. Não gostei da forma intelectualmente desonesta com que Luís Paixão Martins abordou os últimos dias da crise no Sporting. A preferência clubística de alguns membros da sua equipa não é problemática, na estrita medida de que tal não interfira no seu profissionalismo. É o mesmo que dizermos que alguém não serve para treinador do Sporting se tiver outra preferência clubística.
No que toca às eleições de 08 de Setembro, aguardo com expectativa o aparecimento de mais candidaturas, além das intervenções públicas que os candidatos levarão a cabo nos próximos meses. Varandas por enquanto não me entusiasma, mas acredito que possa evoluir nos próximos tempos.

domingo, 24 de junho de 2018

Dias de Sporting

Ultimamente, falar sobre o Sporting revela-se um exercício digno de uma pintura de Miró. Olhamos para um amontoado de formas e cores e quando pensamos que já desvendamos o seu significado, eis que de repente algo se revela e voltamos novamente ao inicio do nosso exercício.
Primeiro era a AG que não se sabia quando (nem qual delas) se ia realizar, depois qual seria a pergunta, a seguir era saber se o Bruno lá ia ou não, depois era o discurso do Bruno, a destituição do Bruno, o Bruno que deixava de ser sportinguista, o Bruno, o Bruno... Pelo meio, a comissão de gestão nomeou Sousa Cintra presidente da SAD e temos o título de futsal para conquistar. Ah, e a nossa pré-época arrancou.
Tanta coisa tem surgido nas últimas horas que nem sei se no final desta prosa não teremos mais alguma novidade. Quando a comecei, Bruno de Carvalho tinha "deixado de ser" sportinguista. Agora parece que até candidato às novas eleições já é. Bom, como não quero voltar a ser surpreendido por nenhuma notícia de última hora, vou tentar resumir as últimas horas ASAP.

AG de dia 23 de Junho

Queríamos que os sócios falassem e os sócios falaram. Setenta e tal porcento de votos a pedir a destituição é muito voto. Estive no pavilhão, ouvi as gritarias e espreitei um ou outro boletim de voto. Tinha o feeling de que a destituição venceria, mas apontei sempre para uma diferença de votos inferior a 10%. Confesso que os números finais surpreenderam-me, mas não mais do que isso. Uma coisa é aldrabar uma votação onde a vitória é conquistada com escassas dezenas de votos. Trinta e tal mil votos (mais de quatro mil sócios) é demasiado para pensarmos, sequer, que houve marosca. O Sporting não é a Venezuela. O argumento do "barulho" é falacioso, pois quem já teve em reuniões deste género, como plenários ou até reuniões de condomínio, sabe perfeitamente que por detrás de quem faz barulho, há uma imensa maioria silenciosa que prefere manifestar-se pelo voto, pela deliberação. Ontem foi mais um dia assim.
Perante a resposta inequívoca dos sócios, Bruno de Carvalho retirou-se de cena (não por muito tempo). A comissão de gestão encheu-se de moral e tratou logo de ir ao principal: tomar conta da SAD. 

Sousa Cintra: As voltas que a história dá

Sobre a comissão de gestão, mais concretamente sobre a pessoa que escolheram para presidir a SAD do Sporting, confesso que o nome deixou-me com tanto de espanto como de entusiasmo. Acredito que para quem nasceu depois dos anos 90 do século passado, Sousa Cintra não passe de mais uma personagem a cheirar a fritos que agora surge em frente às câmaras. Para quem tem mais de 35 anos e não deixou de tomar Memofante nos últimos dias, Sousa Cintra é o sportinguista que, enquanto presidente do clube, mais se aproximou de Bruno de Carvalho na nossa história recente.
Sousa Cintra chegou a presidente após uma época conturbada por graves problemas financeiros do clube, tinha um discurso muito crítico sobre a arbitragem, instituiu uma política de apoio das modalidades (aqui a situação não era tão grave pois as modalidades não tinham sido extintas), procurou promover jovens jogadores nas suas equipas principais, sempre muito competitivas, entrou em guerra com o benfica, desentendeu-se com vários treinadores e teve a feroz oposição da "elite". Era gozado pelos adeptos rivais devido à sua forma genuína de comunicar. Alguém reconhece aqui um padrão? Quis a história, que como dizia aquele nosso avozinho "dá muitas voltas", que Sousa Cintra, depois de ter sido "convidado" a sair do clube em 1995, agora regressasse pela mão e aprovação (não do apoio, creio) dos mesmos que o convidaram a sair.  
Sousa Cintra foi uma espécie de Bruno de Carvalho num tempo sem redes sociais, TV por cabo ou jornais desportivos diários. Se há alguém naquela comissão em quem confio que defenderá intransigentemente os superiores interesses do Sporting, é Sousa Cintra. É uma ironia do destino, mas lembrando-me da forma como ele foi corrido da presidência, a sua chegada a presidente da SAD (uma criação daqueles que o depuseram) é um daqueles casos onde podemos dizer que, por vezes, a história escreve-se direita por linhas tortas.

Bruno de Carvalho: E agora?

Como não poderia deixar de ser, que melhor reacção do presidente adepto ao resultado da AG do que uma reacção... como adepto? Bruno de Carvalho reagiu como nós reagimos quando empatamos ou perdemos um jogo em cima da hora. Azia, vontade em desligar do futebol, queimar o cachecol e o cartão de sócio, insultar todos à nossa volta. É assim à segunda-feira, mas à terça-feira já andamos a perguntar pelo dia do próximo jogo do Sporting. É assim a vida de adepto e é assim Bruno de Carvalho, o presidente adepto.
O anúncio de que vai a eleições a 08 de Setembro é, para mim, uma excelente notícia. E por vários motivos. Primeiro, obriga a comissão de gestão, cujos membros certamente não quererão proporcionar o regresso de BdC à presidência do clube, a fazer tudo, MAS TUDO MESMO, para que os nosso interesses sejam acerrimamente defendidos. E até dia 08 de Setembro há muita coisa para ser defendida. Desde logo a postura a tomar face às rescisões. Livrem-se de "acordos" com rivais, por exemplo. Segundo, vai obrigar a que a corrente moderada, dita de terceira via, onde pululam antigos apoiantes de BdC que não se revêem no croquetismo, como Daniel Oliveira, José de Pina, Eduardo Barroso, Daniel Sampaio, etc., a avançar com uma candidatura própria e forte. É que ontem já comecei a ouvir aquele discurso tipicamente sportinguense (ou sportinguista de antigamente) a reclamar o aparecimento de uma candidatura (única, claro) "abrangente" e de "consenso", que mais não é do que voltarmos aos tempos dos presidentes cooptados pela elite do costume. 
É preciso que não se enganem pelos resultados de ontem. O que se votou ontem, mais até do que a destituição, foi a marcação de eleições, não do regresso ao "pré-Bruno". Se há coisa que estes últimos cinco anos revelaram, é que os sportinguistas são hoje uma massa associativa muito interventiva, atenta à vida do seu clube, com bastante massa crítica e com grande actividade. Qualquer tentativa de voltar a algo que cheire a "antigamente" merecerá dos sócios uma reacção peremptória. Nem que isso implique a voltar a por Bruno de Carvalho na presidência do clube.

E os próximos dias, como serão?

Por tudo aquilo que disse atrás, creio que poderemos ter algum optimismo nos tempos que se aproximam. Entretanto a bola começará a rolar e salvo alguma mudança brusca de orientações, o nosso plantel que vai iniciar a época será um plantel jovem, com muitos miúdos da casa, certamente ambicioso, que lembra muito aquela época de reset de Leonardo Jardim.
Uma coisa é certa, o Sporting não acabou antes de Bruno de Carvalho e não irá acabar depois dele. 
Viva o Sporting!

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Os sócios, a oposição e o "salto para o desconhecido"

Indissociável à decisão de voto contra ou a favor da destituição de Bruno de Carvalho, há outra questão que logo se levanta: caindo o actual CD, quem deverá sucede-lo?
Redundantemente podemos responder que é possível BdC ser destituído e ganhar as eleições seguintes. Creio que tal cenário muito dificilmente se irá pôr, pois não acredito que os sócios que votarem a 23 pela destituição venham depois a votar numa lista encabeçada pelo actual presidente. Pode até fazer sentido em algumas cabeças esse cenário, que seria uma espécie de "cartão amarelo" a Bruno de Carvalho. Mas seria algo estúpido que só iria fazer incorrer o clube numa despesa desnecessária, sem falar no tempo desportivo que se iria perder pelo meio, pelo que acredito que tal coisa só passe pela cabeça de um número ínfimo de sócios. Por outro lado, tenho sérias dúvidas que Bruno de Carvalho consiga concorrer a umas hipotéticas eleições antecipadas. Isto porque me parece claro que o CFeD transitório tem claras indicações para "infernizar" a vida ao actual presidente, para o afastar dos destinos do clube. Bastou ouvir Artur Torres Pereira para se perceber que a comissão de gestão é tudo menos isenta em relação a Bruno de Carvalho, em linha com o que Henrique Monteiro e Rita Garcia Pereira já disseram sobre o nosso actual (e suspenso) presidente.
Assim sendo, creio que para a grande maioria dos sócios que votarão pela destituição de Bruno de Carvalho, tal apenas fará sentido se posteriormente tiverem a oportunidade de escolher um novo presidente por via eleitoral. A grande questão que lhes estará de momento a pesar na cabeça é precisamente essa: a quem irão abrir a porta do clube no próximo dia 23, caso votem pela destituição? Nas AGs de Fevereiro e Março os sócios fizeram um raciocínio semelhante. Apesar de muitos não se reverem no timing ou no teor das alterações estatutárias pedias, acabaram por ceder a uma espécie de chantagem que o presidente fez, quando deparados com o "Bruno ou o caos". Aí as coisas precipitaram-se muito rapidamente e acredito que a oposição não tivesse tido tempo para se organizar. Já nesta crise directiva, se há coisa que a oposição não se poderá queixar é de falta de tempo. Desde 5 de Abril que a "crise" se tem estado a arrastar, apesar da precipitação de há um mês após o ataque a Alcochete.
E a 5 dias da AG decisiva de destituição, que oposição temos nós? Para já, muita parra e pouca uva. Tirando Francisco Varandas, que se assumiu logo com alternativa a Bruno de Carvalho, temos apenas muitas declarações de "notáveis", quase todas de circunstância, expressando vontade em participar numa alternativa a BdC mas sem as liderar. Ou como Rogério Alves, preferem jogar com as palavras e tentam esconder o jogo até - presumo eu - sair a decisão da AG destituitiva. Outros nomes que amiúde surgem também como possíveis candidatos da oposição, como Couceiro ou Benedito, estão neste momento remetidos a um silêncio que não parece indicar que se estejam a posicionar, para já, como possíveis candidatos. 
Se excluirmos Francisco Varandas, cujo anúncio de "disponibilidade" para se assumir como candidato se revelou precipitado e pouco preparado, a verdade é que neste momento apenas temos nuvens no nosso horizonte pós-Bruno de Carvalho. Rogério Alves agrada a alguns sportinguistas, mas parece-me evidente quem é que o apoiará numa putativa candidatura a presidente. E quanto a Couceiro, Benedito, até mesmo Varandas, ou outros que se venham a assumir, é uma incógnita que "Sporting" procurarão defender: se o regresso ao passado pré-Bruno, se a continuação das melhores políticas do actual CD, incluindo a reestruturação da SAD ou algo mais que agora não vislumbro.
Por fim, outro cenário que pode ocorrer dia 23 é o de "logo se vê, desde que se corra com o Bruno". Aqui, a única nuance, é saber se os sócios do Sporting atingiram já o tal estado de saturação com Bruno de Carvalho que, basicamente, se estejam já nas tintas para o que vier depois, desde que seja diferente. Sendo que aqui muito dificilmente terão nas eleições uma hipótese de assistirem a um contraditório entre BdC e a oposição, pois como já o disse, não acredito que permitam que BdC possa concorrer à reeleição. 
Como facilmente se percebe, até dia 23 pode acontecer muita coisa com implicações directas no resultado da AG de destituição. A oposição tem de correr atrás do tempo, mas parece-me que é quem tem mais a ganhar nos próximos dias, se apresentar uma boa alternativa a BdC. Não aparecendo essa tal "alternativa", resta saber até que ponto os sportinguistas estão fartos e dispostos a saltar para o desconhecido pós-Bruno.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Punhadela nas costas

Ontem os sportinguistas sofreram uma punhadela nas costas.
Todos nós que defendemos a atitude irrefelectida de Gelson quando por amizade com Rúben Semedo se auto-excluiu do clássico do Dragão. Quem cantava a música dos AC/DC cada vez que Bas Dost marcava um golo. Quem defendia "sir" William cada vez que rabolhos e andrades vinham com a conversa de que "Ah e tal, William a tartaruga" ou "o Danilo é melhor". Quem viu num jovem desconhecido acabado de chegar de Itália talento suficiente para ser nosso titular, enquanto comentadores e jornaleiros desportivos criticavam o valor excessivo pago por um jogador da Sampdória. Juntemos a história de um "frangueiro" sempre acarinhado em Alvalade e de um rapaz que jogava com as nossas cores desde os seus 10 anos. 
Soco no estômago, punhadela nas costas, tiro na cabeça... chamem-lhe de tudo. Certo é que ontem foi mais uma de muitas noites perdidas de sono, tal o sobressalto que o Sporting me prega nestes últimos tempos. Longe vão os tempos em que tal acontecia por um mau resultado, como o empate em Setúbal. Hoje acontece porque já não reconheço o meu clube. Não reconheço quem o dirige e quem o representa no relvado. Não reconheço porque não tiveram à altura da importância das decisões a ser tomadas. E porque cagaram de alto naquela que deveria ser a sua maior prioridade: os sportinguistas.
Romanticamente, apetecia-me mandar tudo para a valente p*ta que os pariu. O presidente, que insiste no seu exercício suicida de autismo e negação da realidade, sem a mínima capacidade de fazer uma simples gestão de danos. A direcção que o acompanha, que permite com o seu silêncio o caos onde o presidente se afunda. Os jogadores, que ainda há semanas diziam "ser Sporting" e davam voltas olímpicas ao estádio, que fogem do barco sem dizer um adeus a quem ontem lhes batia palmas. Mas a realidade não é assim. Há uma dinâmica de compromisso entre adeptos e clube que entretanto se esfumaçou. Há uma equipa que, com mais ou menos rescisões, precisa de alguém minimamente competente que a treine, sabendo que neste momento é mais fácil viver na Terra de Ninguém entre as Coreias do que treinar em Alvalade. E depois há um presidente e uma direcção que desperdiçaram nos últimos dias todo um capital de confiança acumulado desde 2013. Um presidente cuja única forma de "negociar" é pedir o tudo ou nada, nem que tal implique afundar um clube na incerta esperança que o consiga reerguer "à sua imagem". Mesmo o próprio universo de sportinguistas está hoje profundamente dividido e extremado no caminho que temos de percorrer. Leio com espanto e consternação os comentários que muitos publicam, onde se prontificam para seguir com o seu líder em toda a velocidade em direcção à parede. Muitos nem se coíbem de dizer que preferem o Sporting nas distritais a ter de jogar com "mercenários" no seu plantel. Não foi para fugir às distritais, para onde seriamos remetidos em caso de falência da SAD, que em 2013 votámos todos em Bruno de Carvalho?
Se quem ainda está no Sporting tem um mínimo de amor ao clube, por favor façam uma coisa simples como esta: devolvam a palavra aos sócios do Sporting. Sem rodriguinhos, segundas intenções ou outro tipo de subterfúgios sonsos. Deixem-nos a nós, sócios do Sporting, decidir. 
Devolvam o Sporting aos sócios.

sábado, 9 de junho de 2018

Sobre a providência cautelar

Depois de ter lido tanto tweet, post, comentário ou insulto sobre a providência cautelar de ontem, decidi pegar nela e lê-la com os meus próprios olhos. Não sou nenhum especialista em Direito (longe disso) mas sei ler e compreender textos em língua portuguesa. E basta isto para perceber o que o juíz quis dizer no seu despacho.

O que pede a providência cautelar

Ao contrário do muito que li por aí, esta providência cautelar não servia para pedir o reconhecimento de Jaime Marta Soares como (ainda) presidente da MAG ou para decidir se a AG de 23 de Junho deveria ou não realizar-se. O que JMS veio pedir ao tribunal foi só e apenas condições humanas, materiais, financeiras e de segurança para a realização da AG, as quais deveriam ser asseguradas pelo Conselho Directivo do Sporting, que estaria a boicotar a sua realização. 

Sobre a Assembleia Geral de 23 de Junho

Basicamente o Dr. Juíz reconheceu o requerente da providência cautelar, Jaime Marta Soares, bem como o órgão que este preside, como competente para convocar a dita AG, além de reconhecer a sua existência. É certo que não era sobre isto que a providência cautelar iria decidir, mas a premissa para a decisão final está lá. JMS "é" o presidente da MAG, esta MAG "é" competente para convocar a AG e a AG de 23 de Junho "é" legítima para o fim a que se destina.  
Já a decisão da providência cautelar, que, repito, não incidia sobre a legitimidade da MAG e AG convocada mas sim sobre a obrigação do CD facultar os meios necessários à MAG para a sua realização, foi no sentido de indeferir liminarmente o pedido de JMS. Tal foi justificado pelo juíz porque a) esta não é a forma de acautelar que a AG não se transforme num risco para a integridade física dos seus participantes e b) o que pede JMS não é mais do que o cumprimento das formalidades necessárias para a sua integral realização. A primeira justificação é um "lavar de mãos" do tribunal que chuta a questão da segurança da AG para o foro da manutenção da ordem pública. Já a segunda, que para mim é a mais interessante, o tribunal entende que sendo a AG legitima, o CD só tem de proceder como é da sua obrigação. 
Ora, como o requerido (o CD) não foi ouvido nesta decisão, objectivamente o tribunal não sabe, porque também não pode fazer futurologia, qual será a posição do CD na preparação e realização da AG. Quem lê os jornais e vê televisão obviamente que já constatou que o CD não irá dar nenhuma condição à MAG para realizar a AG de 23 de Junho. Mas aqui a Justiça limitou-se a ser "cega", e por muito absurda que possa ter sido a decisão do Juíz, ela foi a mais isenta possível.
Contudo, chamo a atenção de um aspecto importante que ainda não foi lembrado por nenhum sportinguista. O juiz, quando indefere a PC, descrimina ponto a ponto o requerido por JMS. Contudo ele não refere a alínea g) no indeferimento. Nesta alínea g), o requerente pede que o «REQUERIDO seja expressamente advertido de que incorre na pena do crime de desobediência qualificada todo aquele que infrinja a providência cautelar decretada, sem prejuízo das medidas adequadas à sua execução coerciva.». Ao não incluir esta alínea na sua decisão de indeferimento, o Juíz estaria a dar uma indirecta ao Conselho Directivo do Sporting?

O que vai mesmo acontecer a 23 de Junho

Apesar de não estar em causa a legitimidade da AG de 23 de Junho, esta na prática não irá ter meios para se realizar. Não acredito que a posição do CD se altere, pelo que a MAG não terá forma de assegurar coisas básicas como a lista de sócios actualmente com capacidade de voto numa AG. Sem essa "burocracia", a MAG não terá forma de conduzir os trabalhos, pelo que a AG terá de ser cancelada e adiada. 
Aqui, perante a recusa do CD cooperar, e atendendo ao alegado por JMS na alínea g) da providência cautelar, haverá matéria para outras instâncias judiciais actuarem. 
De qualquer forma, a crise directiva do Sporting está para durar. Veremos o que nos trazem os próximos episódios desta telenovela.